A segunda sessão do julgamento que opõe Iker Casillas à seguradora Fidelidade e ao FC Porto, a decorrer no Tribunal do Trabalho do Porto, ficou marcada pelo depoimento técnico da médica Natália António.
A perita, que foi nomeada pelo Conselho Médico-Legal, sustentou em tribunal que o esforço físico realizado pelo antigo guarda-redes num treino em maio de 2019 foi intenso o suficiente para atuar como um “gatilho” (trigger) para a rutura de uma placa aterosclerótica, mas rejeitou taxativamente que o exercício tenha sido a causa primária do enfarte do miocárdio.
De acordo com a atual diretora Clínica da Unidade de Saúde Local de Coimbra, a verdadeira causa subjacente ao enfarte foi a doença de arteriosclerose coronária, uma patologia de progressão lenta caracterizada pela acumulação de placas de gordura e colesterol nas artérias.
A especialista explicou que cerca de 10% dos enfartes ocorrem em contexto de exercício, mas sublinhou que, devido à dislipidemia (colesterol elevado) do atleta, a placa poderia ter rompido a qualquer momento, inclusivamente no dia anterior, em repouso absoluto ou durante o período de descanso noturno.
A médica esclareceu ainda que não existe a obrigatoriedade de uma coincidência temporal imediata entre o esforço físico e o colapso cardíaco, sendo perfeitamente possível haver um desfasamento (delay) e o enfarte manifestar-se apenas durante a fase de recuperação. Confrontada com relatórios clínicos hospitalares que apontavam para sintomas na véspera do treino — cenário que Casillas nega —, a perita afirmou que esses sinais seriam compatíveis com uma angina de peito, evidenciando que a placa já estava vulnerável antes de o treino começar.
O testemunho de Natália António acabou por contrariar parcialmente a posição do presidente do Conselho Médico-Legal, que validou o relatório pericial por considerar que o exercício só funcionaria como gatilho se ultrapassasse a intensidade habitual do atleta. Para a cardiologista, o esforço nem precisa de ser extraordinário para desencadear o processo de rutura. Contudo, a médica foi unânime ao avaliar o futuro do espanhol, garantindo que Casillas transitou para um grupo de “muito alto risco cardiovascular”, com probabilidade acrescida de arritmias e morte súbita, o que inviabiliza por completo qualquer cenário de regresso à alta competição.
Este painel científico surge no âmbito de uma ação judicial que se arrasta desde outubro de 2021, na qual o antigo internacional espanhol reclama uma indemnização de cerca de 3,7 milhões de euros à Fidelidade e ao FC Porto por incapacidade permanente para o trabalho. Casillas, que na primeira sessão revelou já não conseguir correr mais do que 20 a 50 metros, tenta provar a existência de um acidente de trabalho, enquanto o clube e a seguradora contestam o nexo de causalidade. Até ao momento, a Fidelidade já liquidou 1,5 milhões de euros (o limite máximo anual previsto na apólice), ao passo que o FC Porto alega ter suportado mais de um milhão de euros em salários durante o período de inatividade do camisola 1.